quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Congresso: qual dinheiro, qual interesse? [Jornal NH]
O Estado de S. Paulo divulgou, essa semana, dados referentes às doações de empresas privadas aos parlamentares federais. A publicidade dessas informações não podia ser mais reveladora: empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato doaram para quase todos os partidos, especialmente PT, PSDB e PP (o PSOL nada recebeu). Queiroz Galvão doou mais de R$ 9 milhões; UTC e Odebrecht, mais de R$ 6 milhões; Andrade e Gutierrez, mais de R$ 10 milhões; Engevix, mais de R$ 2 milhões; e assim por diante. Se isso não significa, imediatamente, envolvimento dos partidos donatários com o esquema de corrupção deflagrado pela Polícia Federal, ao menos indica quais são os interesses prioritários do Congresso e quais as chances da reforma política ser aprovada.
Ainda sobre os interesses advogados no Congresso: a JBS/Friboi, apesar de ter investido pesado em publicidade no último ano, não deixou de doar mais de R$ 55 milhões para quase todos os partidos, inclusive destinando uns trocados (pouco mais de R$ 1.000,00) ao Partido Verde, inobstante a problemática do consumo excessivo de água pela gigante do ramo alimentício. Os bancos – que, apesar da crise, tiveram um aumento de lucro maior do que 25% no último ano – também fizeram generosas doações. Quem mais doou? Braskem, Vale, Gerdau, Seara, Iguatemi Shoppings, mineradoras, etc.
Pois bem: uma das bandeiras da reforma política é, justamente, o fim das doações privadas aos candidatos. A reforma é votada, contudo, por esses mesmos parlamentares beneficiários da verba privada. Quais as chances de ser aprovada somente contando-se com o bom senso dos deputados e senadores? Afora outras coisas, farras de aumento de salário, aprovação de aposentadorias ilógicas e exorbitantes gastos adjetos dos representantes do povo mitigam vertiginosamente as possibilidades de esse importante marco democrático vir a acontecer.
É uma troca justa a que faz o Parlamento e a iniciativa privada: dinheiro pela defesa de interesses oligárquicos. Contudo, nada disso é ilegal. Receber de uma empresa valores para custear uma campanha é facultado por lei e aceitar ou não depende da ideologia do partido e do caráter político dos candidatos. Por isso, a reforma política deve ser conduzida para exterminar da democracia o arraigado esquema de interesses particulares e de troca de favores, o mesmo que faz com que, mesmo dentro da lei, tenhamos aprovado na Assembleia gaúcha uma aposentadoria mensal de mais de R$ 20 mil com carência de apenas oito anos. Quanto à aprovação da reforma: só com muita pressão popular, com engajamento concreto. Protestar sem compromisso com a causa de todos é pura monadologia.
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