quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Hipocondria da antipolítica, Domenico Losurdo: uma resenha

Domenico Losurdo é um autor italiano conhecido pela análise de filósofos como Hegel, Marx e Nietzsche, dentro de uma perspectiva sociológico-comunista. Dentre suas obras estão, além da epigrafada, Contra-história do liberalismo, O pecado original do século XX, Do liberalismo ao comunismo, Hegel, Marx e a tradição liberal, apenas para citar alguns. Publicada em 2014 pela editora Revan, Hipocondria da antipolítica recupera aspectos fundamentais do binômio Restauração/Revolução para analisar uma conduta comum no cenário político europeu pós-revolucionário dos séculos XVIII e XIX: a antipolítica, ou a tendência da ideologia derrotada de se afastar da política. Uma análise mais aproximada da pergunta Hegel é liberal ou conservador? foi, contudo, melhor tratada no livro Hegel, Marx e a tradição liberal. Como panorama geral, a obra tende a ligar a filosofia de Hegel aos movimentos revolucionários e contrarrevolucionários (conservadores) dos séculos XVIII e XIX, sobretudo as revoluções sucedidas em torno do ano de 1840. Dentro dessa tensão, o autor recupera autores como Burke, Müller, Michelet, Haym, Heine, Rosenkranz, Tocqueville, Engels, Marx, além de românticos como Goethe, Schlegel e Hölderlin para verificar as consequências da existência prática da hipocondria da antipolítica, conceito este que Losurdo define como “a tendência à fuga para um mundo de ideais de sonho” (p. 115). A amplitude do conceito, contudo, é maior – anuncia a obra - e pode ser provisoriamente remontada a partir do que diz Hegel (1997, p. 26) no prefácio da Filosofia do Direito (1807): “rejeitaram-se, então, tais regras como simples cadeias, para dissertar arbitrariamente, consultando o coração, a imaginação, fiando-se nos acasos da intuição”. Estava Hegel respondendo ao romantismo, umas das formas que, segundo Losurdo, demonstram a hipocondria da antipolítica. A outra, o historicismo, Hegel (1997, p. 27) assim a define: “a atitude do sentimento ingênuo é a de simplesmente se ater à verdade publicamente reconhecida, com uma convicção confiante, e estabelecer sua conduta e sua posição na vida sobre esta sólida base”. Portanto – e essa é a relação que Losurdo traça na obra resenhada – o romantismo e o historicismo foram duas frentes que arremataram a tendência à quietude e estabeleceram uma repulsa à política com base, respectivamente, no sentimento intimista (o langoroso Werther, do romance de Goethe, é o exemplo clássico) e no sentido consuetudinário das coisas, sobretudo morais. Particularmente na Alemanha, o romantismo pôde ser sentido nas célebres e persistentes tentativas de repelir o senso mundano, ingrato, quase pagão da política, incapaz de se proteger na vanguarda da arte ou da religião. Por seu turno, o historicismo se desespera na tentativa de reverter os abalos sísmicos da Revolução a partir do conservadorismo, da política dos estamentos que agora se afirma no chão do empirismo de Locke e das promessas de uma liberdade que parta das evidências do jusnaturalismo. No fundo, a pedra de toque da obra resenhada é a Revolução Francesa de 1789 – a relação acirrada entre nobres e burgueses. O fato de Losurdo, no Hegel, Marx e a tradição liberal, ter aludido as raízes inglesas (Revolução Civil de 1641 e Revolução Gloriosa de 1689) da revolução burguesa na França não arreda, em absoluto, a significação magnânima deste último evento. São ora os burgueses, ora os nobres que se vingam da política pelo seu abandono progressivo. Diante desses aspectos, a obra de Losurdo explicita uma clara oposição do autor ao império da teoria liberal, sobretudo à medida que esta tenta colonizar o pensamento hegeliano com uma matriz liberal; significa, assim, que Losurdo combate – no geral em todas as suas obras – a tentativa dos liberais de fazer Hegel um deles. Para isso, surgem autores como Burke e Haym de um lado e Rosenkranz de outro. Aliás, a imagem de Rosenkranz trazida por Losurdo é o de um hegeliano de direita, que tenta paulatinamente evitar ligações extremistas entre Hegel e a teoria liberal sem, contudo, se deixar persuadir por completo por sua paixão por Hegel. O fato de o cenário atual das pesquisas em Hegel tender a fornecer subsídios tanto para quem afirme ser o filósofo liberal quanto reacionário não inibe Losurdo. A resposta dada por Hegel tanto a romantismo quanto ao historicismo parece situá-lo – eis a pretensão de Losurdo – para além do simplismo da distinção rasa entre ser liberal ou conservador, já que mesmo a teoria liberal pode ser extremamente conservadora em relação a alguns aspectos. O que no fundo Losurdo tenta tecer é um Hegel revolucionário – nem liberal, nem conservador.

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