quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Meio ambiente: pise no freio

Desacelerar quer dizer: pisar no freio, ir mais devagar, reduzir a velocidade de um objeto em movimento. Noutro sentido – mais conotativo, licenciado por um uso geral e vulgar – pode significar que devemos fazer menos, usar menos, comprar menos, darmos menos importância às coisas. Essa ideia não é nova e sempre aparece quando se vai tratar das reflexões de fim de ano. Estamos tão acostumados com elas que já não nos importamos com o quanto prometemos e com o quanto estamos pouco dispostos a cumprir nossas promessas. A promessa (o empenho da palavra) está banalizada. A clássica afirmação segundo a qual o dinheiro não traz felicidade é diariamente contraposta por nossas ações. Mesmo assim, o desacelerar tem aqui um sentido específico: deixar de comprometer a saúde do planeta. Se pisarmos drasticamente no freio até 2036, a Terra consegue reverter o estado caótico de violação da natureza e do extremo uso dos recursos naturais (já escassos). Depois disso, a Terra não consegue mais se regenerar ao ponto de se tornar habitável para os nossos filhos e netos. Significa que as futuras gerações terão de pagar caro pela água dessalinizada, pelo ar artificialmente despoluído, gerando um ciclo de capitalização dos elementos naturais como nunca se viu. Quem lucrará com a desgraça? Decrescer, nesse sentido, representa a inversão de uma lógica bastante comum, pautada na necessidade frenética, fetichista de conceber o desenvolvimento como um aumento do PIB ou dos índices técnicos e estritamente econômicos. Todavia, a teoria do “desvalor” (concebida por Illich já em 1970) diz o seguinte: o preço que pagamos por nossa invasão boçal na natureza não é mensurável em dólar, libra ou real. A perda, que é de todos, não é apenas econômica, ainda que originada pela abissal pretensão hegemônica da economia (desta que estamos praticando). Perdemos a qualidade de vida, a saúde e originamos um estado de guerra primitivo: guerra por sobrevivência. Resumo ilustrativo disso tudo: estamos a 200km/h em direção a um abismo e nos recusamos a frear. Este frear significa tanto mudarmos a) a interpretação e produção do crescimento (decrescermos) quanto b) a forma com que nos relacionamos com as coisas (como as compramos e porque, como as descartamos, etc). Desacelerar tem em vista, assim, a sustentabilidade do mundo, das condições de uma vida com qualidade e de legarmos algo que não poluição e miséria às futuras gerações. No fundo, cada ação nossa em relação ao mundo do consumo deve ser precedida das seguintes perguntas: qual é a consequência global do ato? A minha qualidade de vida aqui e agora ou o futuro de todos? O problema é que, cada vez mais, estamos nos desacostumando a refletir. Nossos atos são inconsequentes e o resultado mero acaso. O buffet é de respostas, não de interrogações. P.S.: o artigo foi publicado em 18 de dezembro de 2014 no Jornal Correio do Povo.

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