quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Paternidade ideológica

Populismo – a despeito do que diz a Luciana Genro – não é “estar pelo povo”, “defender o povo”, de modo que não adianta dizer: “se lutar pelo povo é ser populista, então sou populista”. O conceito remonta uma história dessa palavra. Populismo é ideologia de contentamento; migalhismo; troca desleal; escambo sistemático; banalização da maioria e relativização da força democrática. Getúlio Vargas, populista, deu direitos aos trabalhadores porque era uma exigência contextual, uma necessidade orbital e não porque fizesse política para o povo. Agiu para acalmar a massa e poder atender em paz os interesses que entendia realmente ter envergadura política. A princesa Isabel, ao libertar os negros em 1888, o fez ideologicamente, jamais por oposição radical ao escravismo (basta lembrar que a escravatura foi abolida nos Estado Unidos da América vinte e cinco anos antes). De modo que, no Brasil, o discurso político oficial que se diz “governo do povo” é sempre emblemático, paradoxal e, não raramente, mentiroso. Aliás, essa bandeira populista é a prédica atual de todos os presidenciáveis, do PT/PSDB ao PSOL, passando pelos mergulhos profundos na doutrina religiosa e na valoração patética de uma determinada ideia de família. Os gêmeos siameses – expressão usada por Luciana Genro para falar de Dilma, Marina e Aécio – farão um governo de acúmulo de dinheiro para quem já tem muito, destinando à maioria pobre (a mesma que faz existir o conceito de democracia) os restos, as guimbas de um cigarro fumado pelo capital. Por outro lado, a Luciana Genro tem defendido, na mesma linha que os candidatos anteriores do PSOL, um rompimento radical com a economia de mercado que vem sendo praticada há décadas no Brasil. São as bases de um socialismo à moda brasileira, capaz de reconduzir o caminho dos investimentos públicos às demandas efetivamente sociais (saúde, educação, segurança), gestando e parindo uma reviravolta copernicana na política, na economia e em tantas outras áreas de afetação. O ponto nevrálgico, contudo, parte de um pressuposto democrático basilar do Estado de Direito: a aprovação da reforma política parte do Congresso Nacional, onde o PSOL não tem maioria ou alianças sérias. Eis o nó górdio: como implementar a Revolução Socialista – a partir da democracia – nessas condições? Só a pressão popular será suficiente? Contudo, no tema do populismo, uma opção radical pelo povo pode desintegrar esse conceito (essa é a esperança da democracia) ou rejuvenescê-lo a partir de uma maquilagem para propósitos espúrios. Nós, que bem mais valemos como votantes do que como cidadãos, jamais teremos, nesse contexto, senão prospectos, intuições e, no fundo, crença. O voto – o maior gesto democrático da maioria - é, ao fim e ao cabo, um ato de fé

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