quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
Pedagogia da catástrofe
Quando o assunto é a saúde do planeta – e não os ataques personalizados ao SUS ou às gestões e aos governos – o interesse parece se reduzir ao conhecimento dos diagnósticos nada otimistas, que não mudam os hábitos nossos de cada dia. Significa, assim, que as previsões, reais e alarmantes, não são suficientes para que passemos do pesar à ação. A pedagogia do diagnóstico terminal é sempre mais tênue. No fundo, nutrimos esperanças soltas, perdidas entre a intuição e o “achismo”, de que não é tão grave assim.
Mas é. A debilitação da saúde do planeta tem afetação imediata e a médio e longo prazo. Implica, dentro de um cenário crescente, no comprometimento geral da vida (humana e não humana), do bem-estar, da diversidade de espécies, da disponibilidade dos recursos naturais escassos, etc. Esses, contudo, são aqueles elementos do diagnóstico terminal que, pedagogicamente, tem impacto reduzido em você que está lendo isso agora.
Há, entretanto, uma lição que se aprende mais eficazmente: a oriunda do esgotamento e da dor. Algo como que uma pedagogia da catástrofe (Sloterdijk), capaz de tornar a realidade dura vivenciada uma aula sobre condutas e hábitos. Do ponto ambiental, essas catástrofes já foram e continuam a serem sentidas pelas populações ao redor do globo (terremotos, tsunamis, etc). Ensinaram novos hábitos, prevenções, contornos à fúria da natureza, mas cuja abrangência é dramaticamente local, quase pessoal. Um tsunami conhecido pelos telejornais se equivale à pedagogia do diagnóstico terminal. Precisamos de afetação subjetiva, de privações concretas: que nossa água falte, que nossa casa seja inundada, que a comida se apouque em nossa mesa.
As discussões públicas (inclusive na forma deste artigo), têm um poder de persuasão baixo, como regra incapaz de incitar a mudança de hábito. Culturamente somos compelidos – massivamente – ao consumo extrapolado dos recursos naturais e dos bens e serviços que pululam em gênero e espécie na sociedade. Produzimos muito lixo e descartamos de forma inadequada; desperdiçamos água e alimentos; compramos futilidades e itens de necessidade duvidosa. Aliás, a própria necessidade virou mercadoria.
O que podemos fazer a respeito depois de fechar o jornal? Esperamos as catástrofes?
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